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29 de jun. de 2013

Livro - Luz Antiga

"Billy Gray era o meu melhor amigo, e me apaixonei pela mãe dele". Craque, esse tal de Banville: sabe que, em matéria de romance, a primeira fase é definidora, puxa o restante da narrativa de mundo do narrador.
Mas Banville também é um enganador da melhor estirpe. Com esse estilo ligeiro, encobre uma história tristíssima; no entanto, deixa entrever que seu flerte é com a comédia de erros - ou melhor, com a comédia de fracassos.

Livro - A Vida Financeira dos Poetas

A desgraça financeira do jornalista Matt Prior, anti-herói deste romance sobre a crise imobiliária de 2008, nos Estados Unidos, é diversão da melhor qualidade. Não duvido que os leitores financeiramente enforcados irão se comprazer muito mais do que os raros felizardos bem-sucedidos. A desgraça alheia - não importa se real ou ficcional -, quando é maior e mais engraçada do que a nossa, sempre cai bem.

Livro - Debaixo de Algum Céu

Mais um português fofoleto entre nós. Parece uma praga. A nau da vez desembarca sob a voz de Nuno Camarneiro, gajo se 35 anos que neste segundo romance abiscoitou o prestigioso e caro prêmio LeYa (cem mil euros). Mas fala-se de fofo aqui não por sua carteira, e sim pela linguagem simples e pela comovida compaixão destinada a seus personagens. Todos vizinhos de um mesmo prédio, situado à beira-mar - embora tenha as janelas estranhamente voltadas para um pátio interno.

Livro - Vidas Partidas

O americano William C. Gordon é advogado, jornalista, dono de bar em São Francisco e casado com a escritora chilena Isabel Allende. Toda essa experiência (com a exceção do casamento, talvez) ele transporta para seus livros.
"Vidas Partidas" é seu quarto romance policial. Como outros exemplares do gênero, ele começa com uma dúvida (no caso, duas): quem matou e quem é a vítima. Para elucidá-las, são convocados o detetive Bruno Bernardi e o repórter Samuel Hamilton, ambos presentes nos outros livros do autor.

Livro - Puro

Ambientado na Paris pré-Revolução Francesa, o primeiro romance do inglês Andrew Miller publicado no Brasil costura fato histórico e fantasia de maneira admirável. Jean-Baptiste Baratte é um jovem engenheiro que recebe de um ministro do rei Luís 16 a missão de demolir a igreja de Les Innocents e remover seu cemitério.
Baratte é um homem moderno, discípulo de Voltaire, avesso à religião e à superstição. Mas há questões de ordem prática e moral que não podem ser negligenciadas. Entre elas, a noção de que o passado - suas construções, seus documentos - não deveria ser facilmente apagado e esquecido em nome do progresso.

Livro - O Obsceno Pássaro da Noite


O ponto máximo na carreira do chileno José Donoso é sem dúvida o romance "O Obsceno Pássaro da Noite", escrito em pleno vigor criativo, entre 1962 e 1969, e publicado no ano seguinte. Narrativa espiralada, com múltiplas voltas. Nada mais de acordo com o "Zeitgeist" hispanoamericano do que sua arquitetura cambiante, oscilando entre o fluido e o gasoso, o mágico e o social. Fato que garantiu ao autor uma vaga no exclusivíssimo clube frequentado por Gabriel García Márquez e Julio Cortázar, entre poucos outros.

Livro - O Chamado do Poente

Certa noite, o cairota Ahmad Ibn-Abdallah ouve uma voz misteriosa que o incita a partir. Ele sai de casa ao amanhecer e se une a uma caravana, rumo ao deserto, numa longa jornada de aventuras e descobertas espirituais.
O belo livro do escritor egípcio Gamal Ghitany apresenta o extenso registro das "aventuras singulares, inauditas, que ele viveu viajando de um lugar para outro e de um tempo para outro, impedido pelo irresistível, guiado pelo implacável, sobre o que não adianta falar, argumentar, nem explicar", inspirado em elementos clássicos da cultura árabe e do sufismo.

Livro - Assim na Terra

O primeiro romance do dramaturgo e ator italiano Davide Enia é o relato de três gerações de uma família siciliana. O protagonista é um menino que tem o mesmo nome do autor, Davide, de apelido Davidù. Desde pequeno, ele é preparado para se tornar boxeador em Palermo.

Livro - Tipos de Perturbação

Esse é o primeiro livro da norte-americana Lydia Davis no Brasil. Em 2013, Davis foi contemplada com o Man Booker Prize Internacional e tem outras oito coletâneas de contos e um romance nos EUA.
Suas histórias, que variam de duas linhas a até 50 páginas, são em geral solilóquios onde os narradores parecem tentar equilibrar o peso das próprias sentenças, que soam sempre como definitivas. No entanto, elas são sucedidas por outras frases que parecem ser ainda mais irrefutáveis do que as anteriores, mais verdadeiramente afirmativas.

Livro - Por Sua Conta em Risco

Excelentes séries de TV como as atuais têm fornecido aos leitores o seguinte dilema: para que continuar a ler livros chatos com diálogos morosos e repetitivos (como os de Haruki Murakami, por exemplo) se posso acompanhar a metralhadora colóquio-televisiva proposto por roteiristas desde a extinta "West Wing" até a recente "house of Cards"? É uma boa questão que escritores como Josh Bazell não desprezam.

Livro - Corpus Delicti

Num futuro próximo, um Estado totalitário decretou guerra às doenças. Agora, os cidadãos são constrangidos pela lei a fazer exercícios físicos e exames clínicos regularmente. Nessa sociedade asséptica, obcecada pela saúde, tudo o que antes prejudicava o bem-estar pessoal - cigarro, álcool, drogas, etc. - tornou-se o pior inimigo político do bem-estar social.

Livro - A Morte do Pai

A morte da memória talvez seja o grande tema da teoria da comunicação contemporânea, apontando o dilúvio de informação que baixa (e depois retorna) da nuvem da internet como maior culpado pela fragmentação do passado em infinitos casos do presente.

Livro - O Sermão Sobre a Queda de Roma

Alguns livros ganham força justamente na soma de seus pequenos defeitos. "O Sermão Sobre a Queda de Roma", de Jerôme Ferrari, vencedor do prêmio Goncourt de 2012, está nessa categoria. Num promeiro momento, sente-se o peso dos fraseados longos, ornados com metáforas bíblicas, de sabor apocalíptico. Em contraponto, os diálogos surgem descarnados, quase pueris, como falas de novela. Ao fundo, há o cenário moral emprestado de Santo Agostinho, autor do sermão a que alude o título, o qual ressoa em cada página, como "a maldição divina sobre o Egito".